É lugar comum dizer que o câncer de pulmão é um grande problema de saúde pública, representando uma das principais causas de morte por câncer nesse país heterogêneo, e que aproximadamente 80% destes tumores estão relacionados ao tabagismo. Entretanto, a oncologia torácica é uma das especialidades da oncologia que mais se desenvolveu nos últimos anos e a recente queda de mortalidade por câncer deve-se, principalmente, à queda de mortalidade por câncer de pulmão. Essas são as novidades! Seria pretencioso tentar elencar, em ordem de importância, os possíveis fatores que suportam essa queda na taxa de mortalidade, porém, de certo, observa-se melhorias em todas etapas do processo referente ao entendimento e ao cuidado dessa neoplasia.
A cessação e a não iniciação do tabagismo são a melhor forma de prevenção. As medidas de controle do tabagismo instituídas há anos fizeram do Brasil o segundo país no mundo com menor hábito do tabagismo. No entanto, os dispositivos eletrônicos para fumar são o novo vilão. Desenvolvidos como tecnologia para auxiliar na cessação do tabagismo e com proibida divulgação e comercialização no Brasil, esses vem sendo utilizados de maneira crescente pelos jovens e adolescentes. Estes novos dispositivos carregam não somente um risco aumentado para o desenvolvimento de doenças pulmonares benignas e malignas, mas também são uma ponte para iniciação do consumo do cigarro convencional.
Infelizmente, as neoplasias pulmonares, como grande parte dos tumores, apresentam-se na sua grande maioria em suas fases avançadas. Recentemente, dois grandes estudos sacramentaram o benefício da realização do rastreamento para neoplasias pulmonares em uma população de alto risco com significativa queda de mortalidade. Neste grupo de risco estão aqueles entre 55 e 80 anos, que fumam ou param de fumar há menos de 15 anos e com carga tabágica maior de 30 maços/ano (número de maços por dia x número de anos que fumou). O grande benefício do rastreamento no câncer de pulmão reside na consequente migração de estágios. Na ausência do rastreamento, um tumor que seria diagnosticado somente em estágio IV, dentro do programa de rastreamento conseguiria ser detectado em estádio I ou II, na forma de um nódulo pulmonar assintomático, cujo tratamento tem o intuito curativo.
Inicia-se aqui a jornada do paciente com câncer de pulmão e a jornada da equipe multidisciplinar. Pneumologia, Endoscopia Respiratória, Radiologia, Patologia, Cirurgia, Radioterapia e Oncologia Clínica são de suma importância para entregar o melhor tratamento para o paciente. Avaliação cardio-pulmonar pré-operatória e reabilitação pulmonar peri-operatória refletem diretamente no resultado cirúrgico e na melhor seleção do paciente operável. O aprimoramento e ganho de rendimento diagnóstico das técnicas endoscópicas são grande revolução. A Radiologia tem papel fundamental no seguimento e avaliação dos nódulos pulmonares. Com a crescente necessidade de material para diagnóstico em maior quantidade e qualidade para realização de todos os testes necessários, a Radiologia Intervencionista e a Patologia se redesenharam. Esta última principalmente que, de repente, viu-se inundada por uma enxurrada de novos testes moleculares.
O papel da cirurgia nos pacientes com tumores em estádios iniciais aprimorou-se. Em linhas gerais, pacientes sem evidência de doença extra-torácica e sem acometimento ganglionar mediastinal devem ser avaliados para realização de lobectomia com dissecção ou ressecção ganglionar. O desenvolvimento e o aprimoramento de técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia robótica, resultaram em redução do número de complicações pós-operatórias e tempo de internação.
O advento de novas técnicas de entrega de feixe de radioterapia, como a radioterapia de intensidade modulada (IMRT), permitiu excelente resultados no tratamento de pacientes com tumores de pulmão localizados considerados inoperáveis, sem condições clínicas para exérese de um ou mais lobos pulmonares.
Há menos de uma década atrás, dividia-se o câncer de pulmão em dois grandes grupos conforme sua histologia: carcinoma pulmonar de pequenas células e o carcinoma pulmonar de não-pequenas células. Apesar de simplista, essa divisão bastava para desenhar o tratamento da maioria dos pacientes. No entanto, hoje, isso já não é suficiente e adequado.
A incidência de tumores de pulmão em pacientes pouco ou não-tabagistas vem aumentando progressivamente. Se não é o tabaco, o que pode ter causado esses tumores? A descoberta dos pilares de desenvolvimento do câncer representou a pedra fundamental para melhor conhecimento dessas neoplasias. Manutenção da capacidade proliferativa das células justificada por alterações nas principais vias de sinalização intra-celular é a principal força-motriz dos tumores destes pacientes sem história de tabagismo. Diversas alterações genéticas recorrentes foram identificadas e, contra muitas destas, já se dispõe de uma droga oral que vai bloquear essa alteração diretamente dentro da célula. Está é a simplificação do conceito de terapia alvo.
A resposta imune ao tumor representa outro importante pilar do desenvolvimento do câncer. Surge aqui a segunda mudança no paradigma do tratamento da doença avançada após a terapia alvo – a imunoterapia. O uso dos bloqueadores de co-receptores imunes promove um estímulo para que os linfócitos T do paciente reconheçam e exerçam sua função anti-tumoral novamente.
Na vanguarda no tratamento do adenocarcinoma de pulmão, que é o subtipo mais comum, é mister conhecer o perfil de alterações genéticas de cada tumor obtidos a partir de um painel de sequenciamento molecular de última geração. Pacientes que possuam alguma alteração molecular acionável devem receber terapia alvo como primeiro tratamento quando possível. Para todo resto, a imunoterapia como único tratamento ou associada à quimioterapia deve ser empregada.
Recentemente a aplicação dos novos tratamentos como terapia alvo e imunoterapia no cenário da doença inicial, como tratamento neo-adjuvante ou adjuvante, já mostrou resultados muito promissores. Diante de tantas novidades, vale ressaltar o papel da Equipe Multidisciplinar no cuidado do paciente com câncer de pulmão. Nunca antes na história da oncologia, a consolidação do cuidado multidisciplinar na prática fez tanta diferença.
É nosso compromisso garantir que todo paciente consiga ter a visão e a experiência de toda essa linha do cuidado.
Leia também:


